A escola estava vazia.
Não era feriado, nem fim de semana.
Só um daqueles momentos em que parece que o mundo segue em frente e você ficou parado no tempo.
Andava pelos corredores sem pressa.
Nem lembro o que eu estava vestindo, era só eu no corredor, tentando parecer invisível. Coisa que, sinceramente, eu já faço sem tentar muito.
Eu ouvia uma música na cabeça. Sempre faço isso quando fico mal.
É o único jeito de me sentir um pouco mais... eu.
Eu andava pelos corredores, alguma coisa parecia diferente. Acabei achando um espelho. Era um espelho estranho, ele era velho, torto e estava em um canto de um corredor que eu nunca havia visto antes. Olhei para ele por um tempo, e por um momento não reconheci o que eu vi. O reflexo parecia mudar. Cocei meus olhos achando que estava ficando louco. Logo vi uma criança. Era eu, só que mais novo. Ela estava ali, com as mãos sujas de tinta, como se tivesse acabado de terminar uma das minhas antigas pinturas durante as aulas de artes. O sorriso dela era puro, cheio de vida e cheio de uma inocência que eu não tinha mais. Ainda estava pensando que estava ficando louco. Até que ouvi algo:
— Porque você parou de pintar? Você sonhava com isso. — ela perguntou, com um sorriso aberto, mas que me gerava uma decepção comigo mesmo.
Eu fiquei sem palavras. Olhei para a criança e senti uma dor estranha no peito, um aperto, um amarrão, a dor do arrependimento. Perguntei a mim mesmo: O que aconteceu com os meus sonhos? Eu não tenho a mínima ideia. Aquela criança era um eu que eu tinha deixado para trás, abandonado como se não pertencesse a mim.
Antes de eu conseguir formular uma resposta, a criança já havia sumido e eu tava finalmente vendo meu próprio reflexo. Comecei a chorar enquanto encarava o espelho, me sentia vazio.
— Você ainda tenta se esconder, não é? — o reflexo perguntava — Está tentando agradar todo mundo, mas se esqueceu de você mesmo.
Aquilo foi como um tiro, direto no meu emocional. Eu não sabia o que responder. As palavras pareciam fazer sentido, mas também pareciam mais um eco de algo que eu escondia até de mim mesmo. Não queria me reconhecer no que aquele reflexo meu dizia. Mas no fim, era eu falando comigo mesmo. Eu me achava um baita de um louco.
Pensei em sair andando, até que minha mente percebeu que estava me reconhecendo e decidiu inventar algo (ou não, quem sabe). Vi eu mesmo, porém dessa vez, jovem adulto. Ele parecia mais velho, com o rosto marcado de cansaço. Eu o reconheci no mesmo instante. Era eu mesmo, só que mais velho. Ele me encarava pelo caminho da verdade, de forma crítica.
— Você acha que vai encontrar respostas desse jeito? — ele disse, com um sorriso amargo. — Está fugindo de tudo, sempre se escondendo, sempre se questionando, mas não consegue lidar com nada.
Porém dessa vez, eu respondi.
— Eu não sei.
O reflexo parecia confuso, como se finalmente os conselhos tivessem chegado a mim. Ele respondeu:
— Você não sabe ou não aceita?
Refleti por alguns segundos a mais e percebi que acabei me perdendo em mim mesmo. Pedi a ele para ver meu futuro. Ele disse:
— O seu futuro?
No reflexo que eu segui o caminho de eu não aceitar, não havia nada. O espelho escureceu mas disse:
— E se você não tiver um futuro? — a projeção sussurrou. A voz era profunda, como se viesse de longe, mas ao mesmo tempo tão próxima. — E se você ficar perdido entre o que já foi e o que poderia ser?
Congelei, não sabia nem o que pensar no momento. A ideia de não ter um futuro me apavorava. Eu estava querendo chorar, gritar novamente.
— Eu não sei quem você vai ser. — a projeção disse, sem rosto, sem corpo. — Eu não sei se você vai ser alguém.
O espelho caiu para trás e quebrou. Foi um completo silêncio interno e externo. Eu fiquei ali, olhando os pedaços no chão, mas percebi que ele não estava destruído. Ele só estava… fragmentado, assim como eu. Cada pedaço refletia algo de mim que eu tinha ignorado ou negado. Eu tinha ficado com medo de encarar a verdade sobre quem eu sou, mas agora eu sabia: era a única maneira de me encontrar de verdade. Eu tinha que juntar os pedaços e parar de fugir de mim mesmo. Eu não sabia como, mas sabia que precisava tentar. A parte mais importante, onde supostamente eu teria resolvido tudo, era um simples breu. Eu sabia que essas versões de mim não iriam embora, mas sabia que se eu não mudasse aqui e agora, eu mesmo não me encontraria futuramente e me perderia para sempre.
No fim, a sensação de estar preso em um beco sem saída se tornava cada vez mais difícil de ignorar.
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